O peito voraz dá um grito:
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– se tratava de um grito silencioso. O peito gritou bem alto, mas em absoluto e completo silêncio.
Acabou que aquilo lhe despertou uma curiosidade estranha. Achou aquela coisa do grito silencioso, estranha. Mas peito não tem que achar, afinal peito não pensa, peito sente. Resolveu então solicitar os trabalhos do mestre do pensar, o cérebro:
– Gritar supõe palavras. Som. – disse o cérebro. – Vejamos bem. Comunicação! É isto. O som serve à comunicação. É para que chegue em alguém. Não entendo. Qual a finalidade de um grito silencioso? – Isto é inútil. Completamente inútil e sem sentido. Recomendo que deixe essa história para lá e passe só a gritar com palavras, sons e coisas do tipo, meu caro.
O peito até concordou. Parecia mesmo não haver utilidade nenhuma aquela ação. Se aborreceu um pouco, porque não era a primeira vez que aquilo lhe ocorria. Então caiu- se a gritar de novo, em silêncio, é claro. Mais uma vez, se aborreceu. Por mais que o cérebro explicasse a inutilidade daquele ato, o peito não conseguia evitar. Era quase uma necessidade.
– Talvez, talvez eu esteja com defeito. – ele dizia aborrecido. E cada vez mais que se aborrecia, o grito vinha. Ainda mais forte. E curiosamente ainda mais silencioso.
Ele já estava muito cansado. Já havia gritado em silêncio umas dez vezes. Parecia um soluço que não cessava nem com susto. Então, ele resolveu fazer a única coisa que sabia fazer: sentir.
Deixou um grito enorme enorme e absolutamente silencioso vir:
! ! . . !!!!!!!!!!!!! …..!!!!
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!!
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Ele se assustou. Aconteceu que, não se sabia bem ao certo. Ele acabou chegando em uma conclusão. O cérebro também, até duvidou. já que essa função, do pensar, era trabalho, até então, exclusivo dele:
– O som é para chegar em alguém, cérebro, é verdade! – disse ele meio eufórico como alguém que desvenda algo novo – O grito silencioso é para chegar em alguém também.
O cérebro olhou com uma certa desconfiança, mas com uma estranha curiosidade também. Acenou e pediu para que o peito prosseguisse sua tese.
– É para que chegue em mim. O grito. É para que eu e ninguém mais, escute. Por isto o silêncio.
O cérebro também ficou em silêncio por um minuto ou dois, pensando. E então, se deu por vencido. Fez um gesto de reverência ao peito. É claro, ele sabia que em algumas discussões importantes como estas não há perdedores. Apenas o clarear de um caminho escuro, no qual ambos se beneficiarão. Muitos mais até.
O peito retribuiu o gesto de volta. Neste caso, porque sentiu que deveria fazê-lo, e dessa vez, só isto, bastava. Sorriu, então, feliz. Estava orgulhoso de si.
WINNIE MORIYAMA