O fato mais aterrorizante foi me ver daquela forma. Quer dizer, a vergonha que saia de ter proferido aquelas palavras. A vergonha de me desnudar na frente do outro. Mas sobretudo, senti vergonha de mim própria, de me ver desnudada. E fui eu mesma, em um descuido, que o fiz. Estou me referindo não a nudez do corpo, veja bem, mas uma nudez muito maior e preciosa. Me refiro da nudez da intimidade, tão secretamente protegida.
Não quero que me vejam. Na verdade, quero. É uma contradição. Quero sobretudo, me ver. Qual é a parada? Tá tudo nublado agora. Esta é minha sina: Eu penso demais. Não que seja ruim, é claro. Quero mostrar apenas como as coisas se apresentam. Essa briga interna gigantesca que enche o saco as vezes porque no fundo, a gente é um mistério. De coisas profundas. Tipo raízes, toda aquela parada do Iceberg da psicologia. E isso me fascina profundamente, mas também me gera um medo meio que proporcional.
– Não, por favor, não vá. É que… eu gosto de você! Tipo muito. Gosto mesmo. E eu não quero que você se vá, mas ao mesmo tempo também quero. Não quero que chegue tão perto assim. Ao mesmo tempo quero. Tudo é muito contraditório, porra. Mas a vida é assim. Ô coisinha complexa e confusa.
Tá. É que sou um troço medroso, na verdade. irritado, nervoso e muito, muito medroso. E ataca sim, é claro. Nessa tentativa – louca – de me aproximar enquanto não sei nada sobre o outro. E enquanto não sei o que acham que sabem sobre mim. Mas curiosa. Muito curiosa.
– Gosto para caralho de você! Que saco. Queria não gostar. Não, quero gostar sim. Você também sou eu. – Saia. Pensando bem, Não, não. Fique! Mas não construa uma prisão. Eu também não a quero. É que eu não quero viver em qualquer uma que seja, sabe? Só que muitas vezes aí que está o fato: nem sempre é fácil reconhecê-la. É preciso estar atento. Então eu penso muito.
Fascinante, aterrorizante? Eu não sei. Talvez sejam os dois, juntos. Aquela coisa que eu digo, é maior que as palavras. Afinal, nós somos humanos. Felizmente ou – e, também – infelizmente.
É que se eu tivesse dado pra nascer árvore, bicho, cachorro, papagaio, morcego. Mas o fato, meu senhor, é que eu nasci gente.
WINNIE MORIYAMA