Você

Eu nunca quis dizer adeus

Mas foi necessário partir 

Pra me encontrar

Necessário partir para bem longe de seus braços, confortáveis demais, desejados demais

Para me lembrar que os meus também também me dão colo

Eu nunca quis dizer adeus

Mas é que quando você chegou

Foi tanto querer 

Que me esqueci de me querer

Foi tanto querer

Que tive medo do vazio

(E esse é um medo válido)

Penso que o amor caminha ao lado da tranquilidade, da paz

Mas às vezes vem fantasiado de uma boa dose de ventania

que passa, rápido demais

Mas que move algo de lugar 

Nem sempre é sobre o tempo do relógio, mas nos segundos que se fizeram infinitos 

Na intimidade

de um sorriso

De dentro de nós 

O último poeta dos últimos dias dos últimos tempos

E afinal cairá no esquecimento como mil e tantas.

De um novelo enrolado no peito,

Ela não teceu mais nada

Não remendou mais nada

Se indispôs a tecer.

Estava frio lá fora

Mas ela não queria mais tecer. Não adiantava. Não queria mais.

O fio não tinha acabado, suas mãos estavam ótimas. Seus dedos, perfeitos, a máquina de costura, funcionando como sempre.

Mas ela não queria mais tecer.

Afinal cairá no esquecimento como mil e outras.

O fio, o novelo, o cachecol.

Cairá no esquecimento como mil e outras.

Tudo se esquecerá, é assim, não tem jeito.

O fio apodrece.

Ele apodrece, no final. Vira bolor. Some de vista.

Cai no esquecimento

Cai no esquecimento a mão de quem teceu

Cai no esquecimento o pescoço de quem usou

Cai no esquecimento o vento que bateu nele

Até o dia que não sobra mais cachecol, vento, não sobra mais fio algum.

Ele desaparece da face da terra

E cai em um esquecimento total.

Como mil e outras. Como mil e tantas.

WINNIE MORIYAMA

Risada – choro – de criança

Por entre os fios daquele luar

Chegaram até mim

Claros. Radicalmente claros.

Uma imensidão clara. Muito, muito, muito: clara.

Golpearam- me feito uma centena de raios. Ao mesmo exato segundo de vida.

Mas não me cegaram.

Eu não usava óculos escuros, lentes ou qualquer outro destes

Mas não me cegaram.

(Oh céus, não me cegaram!)

Agradeci, em completo (ou quase) (ou não?) silêncio.

Agradeci? Completamente (ou quase) (ou não) de olhos fechados.

Eles não me cegaram.

E então depois disso tudo, eu ri.

Daí a lua voltou a ser só lua.

E o raio, só raio.

WINNIE MORIYAMA

Agora

A coragem tal qual a de uma cobra, que ao se ver não mais podendo ocupar um espaço pequeno em si , faz um movimento enorme e doloroso e se despe. Remove a camada grossa e antiga. E parte pro novo.

Uma mãe que pare um filho.

Uma flor que nasce.

Um amor.

Quero viver tão fincada no presente

Presentemente estar no mais absoluto presente

O maior e mais verdadeiro presente que possa existir.

Ele existe?

Onde a mais ínfima molécula do meu ser, a mais ínfima célula, o mais ínfimo átomo

Possam estar no exato microssegundo de um espaço tempo do exato agora

Do exato pulsar do exato espaço e tempo do exato agora

Estar viva.

Respirar a vida. Respirar a morte. Só respirar.

Viver.

Viver Sem medo. Viver Sem medo de viver.

Viver Sem medo do amor.

Ampliar o amor é viver no presente.

Viver o presente é ampliar o amor.

A minha meta é virar bicho.

WINNIE MORIYAMA

O beija flor

Dalva era uma menina inquieta. Curiosa. Sempre gostava de procurar os porquês do mundo. Por quê disto, por quê daquilo. Por quê o céu é azul, por quê o mundo existe. Soava irritante até.

⁃ Porque sim, Dalva. Simplesmente. O mundo é assim.

⁃ Porquê sim não é resposta!- e batia o pé, completamente insatisfeita. Os adultos de fato não a compreendiam. Não compreendiam a tamanha necessidade que a menina tinha de querer saber.

Parou então um pouco de perguntar para os adultos e resolveu ir atrás, ela mesma, destas respostas. Pra Dalva, o mundo era um mistério. E ela queria desvendar todos eles.

Conforme crescia, algumas coisas conseguia compreender. Outras, seguiam sem respostas. Algumas, ainda, pelo contrário, davam mais nós na cabeça a medida que a menina encontrava mais respostas! Aquilo a incomodava. Ela era quase uma cientista nata. Seu desejo por saber era meio que uma coisa incontrolável.

Crescida com a cara nos livros, um dia por um descuido, lendo um livro no jardim de sua casa, viu algo passar por seus olhos: Dalva se apaixonou, de imediato, por um beija-flor. Suas cores, a delicadeza com que ele se movia. Ao mesmo tempo, a força brutal de suas pequenas asinhas coloridas que faziam com que ele suspendesse, de certa forma, o ar. Nunca havia visto, em toda sua vida, tamanha – e singela – beleza.

Nos dias em que ele não vinha, a menina ficava triste.

“E se um gavião tiver pego ele?”

“E se por um acaso ele bateu bem forte em uma árvore e morreu..?”

Ela não gostava nem um pouco de pensar nisso. Então logo distraia sua cabeça e dedicava uma parte de seu dia a colocar mel na pontinha de todas as flores do quintal, só para ter certeza de que ele voltaria.

Ele gostava de vir pela manhã. Então ela passou a acordar todos os dias de manhãzinha, mesmo nas épocas de frio intenso. Logo que o sol nascia, Dalva já estava em pé, só para poder olhá-lo mais uma vez, bem de pertinho. Sempre tomava muito cuidado para não fazer um movimento brusco demais; tinha medo de assusta-lo e de ele ir embora para sempre. A cada dia, ela ia descobrindo uma coisa nova naquele beija flor: uma marquinha aqui, outra ali, um vermelhinho no canto de seu olho esquerdo…

Ele passou a visitar sua casa todos os dias. E todos os dias – sem falta – Dalva estava lá.

Até que um dia, ele não veio.

Depois outro e mais outro e mais outro! O brilho nos olhinhos da menina foram se aquietando. Até seus pais haviam notado. Aparecera outros beija flores por lá. Seus pais sempre lhe chamavam. Ela corria pra janela, mas quando olhava, nenhum era o seu. Deixou até um pouco os livros de lado. Ela Estava realmente triste. Mas nunca deixava de ir a janela. Sentia que ele haveria de aparecer, algum dia, de novo.

E foi. Ele apareceu. Desta vez, não para ver as flores, mas apareceu, curiosamente, na frente dela. Ele parou no ar, exatamente na frente da menina, com suas asinhas batendo muito fortes. Ficou suspenso no ar. Frente a frente com a menina. Olhando Dalva. Seus olhos pequenininhos conversavam com os dela. Não haviam palavras, nem nada inteligível do tipo. Mas havia algo, por entre aqueles microssegundos do bater de suas asas. Algo ali que a menina não entendia racionalmente. Mas existia, ali, em um espaço infinito de olhar para olhar.

Acho que ele ficou parado por um minuto ou dois. O suficiente para se criar um tempo e espaço paralelos. Naquele dia, Dalva entendeu alguma coisa. Sabia que aquele serzinho – o seu beija flor – também. Alguma coisa que não estava nos livros. Uma outra coisa.

– Não sempre, mas as vezes Dalva, bem as vezes mesmo, porquê sim, é resposta também.

A menina concordou.

WINNIE MORIYAMA